O ENSINO DA ESPIRITUALIDADE NOS CURSOS DE MEDICINA NO BRASIL E NO MUNDO

11/08/2011 15:13

O ENSINO DA ESPIRITUALIDADE NOS CURSOS
DE MEDICINA NO BRASIL E NO MUNDO

 


Júlio Cesar Gagliardi Filho
Acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo


Gabriel Henrique Beraldi
Acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo


Maria do Patrocínio Tenório Nunes
Médica Clínica Geral e Professora Associada da Disciplina de Clínica Geral e Propedêutica do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo


Silmar Gannam
Médico Pediatra e Médico Assistente do Ambulatório de Pediatria do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo.


1. Introdução
Na antiguidade, cabia aos sacerdotes a função de entrar em contato com dimensões superiores e, por meio do auxílio do divino, realizar curas nos enfermos. Para tais sociedades clássicas, bem estar físico e bem estar espiritual estavam intrinsecamente relacionados1. Com o passar dos séculos, entretanto, a distância entre ambos foi crescendo a ponto de se antagonizarem: a medicina científica rompia os laços entre cura e espiritualidade.
Contudo, a contemporaneidade tem renovado seu interesse no assunto e, cada vez mais, pesquisas são conduzidas para validar a importância dessa interface. Diversos trabalhos já foram publicados a respeito da influência da espiritualidade no tratamento do enfermo, principalmente no que tange sua saúde mental. Tais estudos demonstram que a espiritualidade do paciente vem ganhando um importante espaço dentro da medicina, e deve, portanto, ser um conteúdo ministrado às presentes gerações de médicos, a fim de que se consolide como uma ferramenta útil a eles no futuro. Dessa forma, espera-se que as escolas médicas busquem inserir no currículo, seja nuclear ou eletivo, matérias que abordem a relação existente entre medicina e espiritualidade.
Tão essencial quanto analisar a influência da espiritualidade no tratamento de condições patológicas, é avaliar a maneira como tal assunto é abordado durante a graduação de acadêmicos de medicina. A presente revisão busca sumarizar os resultados obtidos até agora. Para tanto, realizou-se busca na Internet através das bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, visando encontrar a literatura já existente sobre o assunto espiritualidade no currículo médico. Como palavras chaves foram, inicialmente, utilizados os termos ‘spirituality’ e ‘medicine’.
Em vista do grande número de artigos obtidos com o uso do termo espiritualidade no
tratamento específico de doenças, refinou-se a busca, associando-se os termos anteriores a ‘medical education’. As informações obtidas foram posteriormente analisadas e comparadas, a fim de estabelecer o panorama geral do ensino da espiritualidade nos cursos de medicina do país e do mundo.
2. Desenvolvimento
Durante a revisão na literatura foram encontrados inicialmente 1424 artigos e comunicações científicas sobre o assunto. Após refinamento com o termo 'medical education' houve redução significativa no número de artigos disponíveis, permanecendo apenas 172 como eleitos. A maior parte deles, 170 artigos, diz respeito à inserção de cursos sobre espiritualidade em escolas médicas no exterior, mais especificamente em universidades nos Estados Unidos e na Europa. Apenas dois artigos abordam a questão em território nacional7, 9.
Esses números demonstram que o Brasil carece de pesquisas sobre a educação médica em espiritualidade e, mais ainda, podem ser indicativo de que, em sua maioria, os cursos de medicina brasileiros não abordam o tema espiritualidade em nenhum momento da graduação.
No exterior, contudo, a realidade mostra-se bastante diferente.
1. Inserção de cursos de espiritualidade nas escolas médicas no mundo.
Segundo a Associação Médica Americana (AMA - American Medical Association), em 1992, 2% de todas as escolas médicas dos EUA ofereciam cursos relacionados à espiritualidade. Em 2004 esse número cresceu para 67%, o que significa que dos 150 cursos de medicina lá existentes, 100 deles incluíam no currículo algum conteúdo relacionado à medicina e espiritualidade2.
Até o presente momento, dez programas curriculares americanos foram avaliados quanto aos seus objetivos e resultados3. Dos dez programas, três foram desenvolvidos para acadêmicos do primeiro ano3,4,5, dois para os alunos do segundo ano3, dois para estudantes do primeiro e segundo anos3, e mais dois para alunos de terceiro ano3,6. Quatro deles propuseram objetivos, dentre os quais são constantes: entender como as crenças espirituais dos pacientes interferem em sua saúde3,4,5,6, compreender como a crença pessoal dos acadêmicos influencia na assistência por eles proporcionada6, e desenvolver a habilidade em se obter um histórico espiritual do paciente3,5. Entretanto, a maior parte dos artigos não deixa claro quais são os aspectos particulares abordados em seu currículo3.
Os métodos utilizados nesses programas incluíam palestras sobre o tema, discussões em pequenos grupos, entrevistas padronizadas de pacientes, leituras e aplicação de questionários3,4,5,6.
Em um deles, houve a inclusão de períodos em que fosse possível acompanhar o capelão do hospital, inferindo, assim, sua importância6.
Um dos artigos relata a dificuldade dos estudantes em diferenciar espiritualidade e religião, além do receio de, ao lidarem com o tema, se afastarem da ‘medicina real’. Apesar de tudo, constatou-se mudança na maneira como o assunto era visto pelos universitários, e, por fim, houve a implementação do programa no currículo nuclear do terceiro ano6.
Segundo o estudo de King et al. a respeito de outra escola de medicina americana, foi possível a inserção efetiva da ‘propedêutica espiritual’ já no currículo de alunos do primeiro ano. Salienta-se, entretanto, que a formação cultural do lugar, um estado pertencente ao chamado Cinturão da Bíblia (Bible Belt), pode ter sido a responsável por esse sucesso, talvez não aplicável a outros ambientes médicos4.
Neely e Minford, em seu estudo sobre o ensino de espiritualidade nas escolas médicas no Reino Unido, concluíram que há pouca uniformidade nos currículos oferecidos no que diz respeito ao conteúdo, à forma, à quantidade e ao tipo de profissional responsável pela orientação dos acadêmicos1.
Os EUA perfazem a maior fonte da literatura científica a respeito de educação médica em espiritualidade, o que é reflexo do grande número de escolas que já vêem na espiritualidade um tema a ser discutido durante a graduação. Outro estudo aponta ainda dados do Reino Unido, demonstrando que 59% das escolas médicas já oferecem algum tipo de curso relacionado à espiritualidade1. Infelizmente, o Brasil não conta ainda com dados satisfatórios nesse sentido.
2. Inserção de cursos de espiritualidade nas escolas médicas brasileiras.
Lucchetti e Granero apontam o quão paradoxal é o fato de o Brasil ser um dos países mais religiosos do mundo e, ainda assim, possuir pouquíssimas escolas médicas oferecendo cursos sobre a interface espiritualidade/medicina7.
A primeira instituição a oferecer um curso a respeito do assunto foi a Universidade de Santa Cecília, localizada em Santos, Estado de São Paulo, no ano de 2002. Contudo, a primeira faculdade a promover a inserção do tema no currículo acadêmico foi a Universidade do Ceará, somente em 20067. Nos anos posteriores, outras Instituições, como as Universidades Federais de São Paulo, Rio Grande do Norte e do Triângulo Mineiro, passaram a oferecer algum curso relacionado à espiritualidade, todos no currículo de optativas8. A Universidade de Campinas (Unicamp) utilizou-se de seu curso de bioética para abordar o assunto9.
O Brasil conta também com grupos de pesquisa especializados em espiritualidade e saúde, como o PROSer (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade) do Instituto de Psiquiatria da
Faculdade de Medicina da USP, o NUSE (Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade) da Universidade Federal de São Paulo e o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da Universidade Federal de Juiz de Fora, os quais são responsáveis por grande parte das publicações relacionadas à medicina e espiritualidade no Brasil.
A resistência na introdução de cursos de espiritualidade no currículo médico é decorrente da ausência de estudos nacionais sobre o assunto e do preconceito existente contra a coerção e o sectarismo religioso7. Contudo, esses desafios têm de ser superados, a fim de que a espiritualidade, cuja relevância à medicina já foi comprovada, possa ser ensinada aos médicos em formação no Brasil.
3. Conclusão
Muitos pacientes esperam que seus médicos respeitem suas crenças e sejam capazes de lidar com preocupações de cunho espiritual durante uma consulta10. Inúmeras são, entretanto, as barreiras que se interpõem para que essa imagem se torne concreta, como a escassez de estudos sobre o tema, sobretudo em território nacional, e a falta de preparo e conscientização dos médicos sobre a importância da espiritualidade. Na prática clínica, o desconforto dos médicos, a falta de tempo e o temor que o paciente se sinta ofendido são também fatores que dificultam a abordagem do assunto11.
A necessidade de inserir a espiritualidade no currículo vem de sua comprovada influência nos resultados do tratamento e na manutenção da saúde do paciente. Todavia, são poucas as escolas médicas que já conseguiram integrar o tema à graduação. A maior parte dessas escolas está nos Estados Unidos e Reino Unido, de onde parte também a maior quantidade de estudos sobre o tema. No Brasil, são poucas as ações em prol do desenvolvimento de um programa curricular onde a espiritualidade tenha espaço, e nos poucos exemplos existentes observa-se a realização de cursos utilizando-se disciplinas optativas.
O espaço existente entre a medicina, ciência objetiva, e a espiritualidade, o abstrato, torna a maioria dos médicos pouco receptiva para aceitar e lidar com questões metafísicas de seus pacientes. Mesmo em universidades onde já há um progresso nesse campo, surgem outros problemas: como será possível conciliar a formação cultural dos acadêmicos de diferentes populações com a necessidade de se oferecer currículos de certa maneira uniformes?
Fica claro que mais pesquisas nessa área devem ser desenvolvidas para que, um dia, seja possível conhecer a melhor maneira de se ensinar o tema.
REFERÊNCIAS
1 Neely D, Minford EJ. Current status of teaching on spirituality in UK medical schools. Medical Education 2008; 42: 176-182.
2 American Medical Association. More schools teaching spirituality in medicine [online]. [citado jun 2010]. Disponível em URL: http://www.ama-assn.org/amednews/2008/03/10/prsc0310.htm.
3 Fortin AH, Barnett KG. Medical School Curricula in Spirituality and Medicine. JAMA 2004; 23: 2883.
4 King DE, Blue A, Mallin R, Thiedke C. Implementation and Assessment of a Spiritual History Taking Curriculum in the First Year of Medical School. Teaching and Learning in Medicine 2004; 16: 64 – 68.
5 Hull SK, DiLalla LF, Dorsey JK. Student Attitudes toward Wellness, Empathy, and Spirituality in the Curriculum. Academic Medicine 2001; 76: 520.
6 Graves DL, Shue CK, Arnold L. The role of spirituality in patient care: incorporating spirituality training into medical school curriculum. Academic Medicine 2002; 77: 1167.
7 Lucchetti G, Granero A. Integration of spirituality courses in Brazilian medical schools. Medical Education 2010; 44: 527 – 530.
8 Associação Médico-Espírita do Brasil. Cursos de Medicina e Espiritualidade [online]. [citado jun 2010]. Disponível em URL: http://www.amebrasil.org.br/portal/?q=node/54.
9 Dantas Filho VP, Sá FC. Ensino médico e espiritualidade. O Mundo da Saúde São Paulo 2007; 31(2): 273 – 280.
10 Puchalski CM, Larson DB. Developing curricula in spirituality and medicine. Academic Medicine 1998; 73: 970 – 974.
11 Koenig HG. Religion, Spirituality, and Medicine: Research Findings and Implications for Clinical Practice. Southern Medical Journal 2004; 97(12): 1194 – 1200