EDUCAÇÃO, CIDADANIA E ESPIRITUALIDADE: UMA EXPERIÊNCIA NO COTIDIANO DA SALA DE AULA1

04/11/2013 18:35
EDUCAÇÃO, CIDADANIA E ESPIRITUALIDADE: 
UMA EXPERIÊNCIA NO COTIDIANO DA SALA DE AULA1
 
 
 
 Paulo Sérgio Barros2
 
 
Introdução 
 
 Um dos temas mais pertinentes no âmbito da educação tem sido como criar e 
manter relações éticas entre os sujeitos que constituem uma instituição educacional e 
fazer dessa prática uma vivência cotidiana que ultrapasse as dimensões físicas da escola 
e se torne uma experiência comunitária, social e planetária. 
 A educação fundamentada em valores humanos tem sido um dos caminhos 
percorridos nesse sentido e tem conduzido à prática de metodologias que produzem 
efeitos positivos no processo cognitivo dos temas abordados. Ao mesmo tempo, tais 
fundamentos educacionais têm inspirado educadores e estudantes a reflexões e 
vivências efetivas de sua condição de cidadão ético. Nessa perspectiva, a comunidade 
escolar é impulsionada a reavaliar seu ethos de forma que este passe a constituir um 
ambiente que valoriza o desenvolvimento físico, intelectual, emocional e espiritual dos 
estudantes. Como esse ethos pode ser movido por relacionamentos cooperativos, 
tolerantes, respeitosos e solidários de maneira que ensinem o que Morin (2000) 
denomina de a “ética do gênero humano”, isto é, a civilização do planeta por intermédio 
de movimentos que objetivam a cidadania terrestre. Assim, busca-se um melhor 
convívio de cada sujeito consigo e com o próximo. Esta premissa torna-se o meio para 
levar as experiências às comunidades, às sociedades e ao planeta. 
 Essa linha de raciocínio tem iluminado a prática de muitos educadores no seu 
ofício de ensinar, informar, educar, sobretudo na sua prática de humanização. 
 O Programa Vivendo Valores na Educação – VIVE tem sido, nessa perspectiva, 
uma ferramenta essencial que vem sedo utilizada desde 1996 por uma gama cada vez 
maior de educadores ao redor do globo. O VIVE está em sintonia com os paradigmas 
 
1
 Texto publicado no livro Educação e valores humanos no Brasil: trajetórias, caminhos e registros do 
Programa Vivendo Valores na Educação, organizado pelo autor, editado pela Brahma Kumaris Editora. 
Sítio: www.bkeditora.org.br. 
2
 Professor da Secretaria de Educação do Estado do Ceará, Mestre em História pela Universidade Federal 
de Pernambuco, coordenador do Programa Vivendo Valores na Educação para o Norte e Nordeste do 
Brasil. Email: paulosbarros@ymail.com. educacionais que propõem uma educação para a paz (JAREZ, 2002) e que valorizam o 
caráter multidimensional do indivíduo (MORIN, 2000). Valores como a paz, o amor, o 
respeito, a compreensão, a solidariedade, a tolerância, a cooperação, etc. devem estar no 
cerne da educação, tornando-a responsável pela “vivência ética em escala humana” que 
nos demanda o desenvolvimento simultâneo de nossas autonomias pessoais, nosso ser 
individual, nossa responsabilidade e nossa participação no gênero humano (MORIN, 
2005, p.102). 
 Neste texto, tecemos algumas considerações sobre a efetividade do modelo 
teórico-metodológico do VIVE no sentido de proporcionar a estudantes e a educadores a 
compreensão, a reflexão e a vivência de valores universais no âmbito escolar. Também 
compartilhamos nossas experiências com a aplicação do programa com turmas de 
adolescentes e jovens na Escola de Ensino Fundamental e Médio Maria José Medeiros, 
no Município de Fortaleza. 
 
O VIVE e um olhar múltiplo sobre o ser 
 
 O VIVE foi desenvolvido a partir de um olhar caleidoscópico sobre o ser. Em 
seus modelos de formação para educadores e nas atividades com valores para 
estudantes, o ser humano é visto a partir das dimensões física, psicossocial e espiritual. 
A dimensão singular do indivíduo (personalidade) e a sua interação com outros e com o 
planeta está implícita em sua essência teórica e proposta metodológica. 
 As atividades do VIVE focalizam-se, em primeiro plano, sobre o caráter positivo 
da personalidade humana (virtudes, habilidades positivas, talentos). O reconhecimento e 
a vivência dessas qualidades é o ponto de partida para o desenvolvimento de sua 
consciência ética através da sua forma de pensar, comunicar-se, atuar e relacionar-se 
com o mundo. 
 O indivíduo reaprende a reconhecer seus valores pessoais e espirituais e é 
inspirado a apreciar os valores de sua cultura, conviver com a diversidade, formular 
seus juízos de valores, elaborar pensamentos autônomos, críticos e que exercitem a 
liberdade de discernimento, sentimento e imaginação, para desenvolver seus talentos e 
ser protagonista de sua história. Noutros termos, as atividades do programa contribuem 
para a constituição de uma consciência cidadã de maior amplitude, em conexão com as 
questões globais mais urgentes que exigem do ser humano uma postura de vida ética 
face às suas relações com o semelhante e com o planeta.  Tillman (2002, p. 01), a principal escritora da série de livros do VIVE, acredita 
que a atmosfera na qual o estudante vive é de importância capital para despertar a 
vivência dos valores. A criação de uma atmosfera baseada em valores na relação de 
aprendizagem é essencial para otimizar a exploração e desenvolvimento de valores 
pelos estudantes. Um ambiente de aprendizagem cujo ethos é encorajador, cuidadoso e 
criativo, proporciona aos estudantes o desenvolvimento de comportamentos positivos. 
 Uma atmosfera baseada em valores pode ser definida como um espaço amoroso, 
respeitoso, de entendimento e aceitação que contribui para um indivíduo desenvolver-se 
e aprender. Nesse ambiente, os estudantes sentem-se amados, respeitados, ouvidos, 
valorizados e seguros, e desenvolvem habilidades pessoais, sociais e emocionais, 
notadamente habilidades de comunicação interpessoal, ou seja, comportamentos 
baseados em valores que conduzirão os estudantes a integrarem, naturalmente, esses 
valores em suas vidas e no relacionamento com o outro. Uma atmosfera escolar assim 
caracterizada é incentivadora, questionadora, aberta, flexível e criativa (TILLMAN; 
COLOMINA, 2004, p. 79-80). 
 Tillman observa que em um ethos educacional negativo, onde a motivação e o 
controle são empreendidos através do medo, da vergonha e da punição, os estudantes 
sentem-se inadequados, medrosos, magoados, envergonhados e inseguros. Interações 
repetidas carregadas com essas emoções marginalizam os estudantes, diminuindo seu 
interesse verdadeiro pela aprendizagem, conduzindo-os a uma série de relacionamentos 
negativos que os faz tornarem-se deprimidos, ou a entrarem em um ciclo de culpa, 
raiva, vingança e possível violência. (TILLMAN, 2007, p. 01). 
 O VIVE oferece meios para examinar esses ciclos de inadequação, mágoa, 
medo, resistência, culpa e raiva, a fim de eliminá-los. A intenção é melhorar a qualidade 
do ensino e promover o desenvolvimento das capacidades emocionais e sociais 
positivas do estudante por meio da familiaridade com os valores universais (TILLMAN; 
COLOMINA, 2004, p. 80), quebrando os ciclos de inadequação e criando uma 
atmosfera de valores. 
 Por uma atmosfera de valores, entendemos relacionamentos éticos permeando 
toda a comunidade escolar em suas múltiplas relações. Mesmo havendo um programa 
de conteúdos e uma metodologia adequados para educação em valores humanos, se 
estes estiverem dissociados do esforço para uma vivência cotidiana por parte de 
educadores, gestores, estudantes e de outros profissionais que compõem o corpo da 
escola; e se não houver uma relação dialógica entre a escola e a família no processo de educação e formação humana, o êxito em sua aplicação torna-se um objetivo de difícil 
alcance. 
 Conforme Morin (2000, p. 93-95) a “educação é responsável pela vivência ética 
em escala humana”, que nos levará a aprender a “estar aqui” no planeta, ou seja, 
aprender a viver, a dividir, a comunicar e a comungar. Para tanto, a consciência de ter o 
reconhecimento da unidade na diversidade e a percepção espiritual da condição humana, 
ou seja, o uso do pensamento para o exercício da crítica e compreensão mútuas e da 
autocrítica é essencial. Sem elas não aprendemos a conviver, reconhecer a alteridade e a 
perceber as interdependências, de modo a permitir a realização de projetos comuns e a 
gestão coerente dos conflitos. 
 O VIVE é um exemplo emblemático de educação que considera o indivíduo 
como um ser singular com uma consciência plural, ou seja, que aprende a perceber sua 
subjetividade e espiritualidade e ao mesmo tempo conviver com as particularidades de 
cada indivíduo e com a diversidade expressa em sua sociedade. Nesse sentido, ele se 
constitui em uma perspectiva de educação formadora de cidadãos planetários, isto é, 
está em sintonia com as questões globais mais importantes, inspirando estudantes e 
educadores a agir objetivando mudanças positivas. 
 A abordagem humanista do VIVE também incorpora a atmosfera baseada em 
valores através do desenvolvimento de uma consciência positiva no educador, a partir 
da qual ele vive seus valores enquanto compartilhando tempo e atividades com os 
estudantes. As atividades do VIVE partem de três estímulos para criar essa atmosfera de 
valores: reflexão interna (imaginação, reflexão, relaxamento), exploração de valores no 
mundo real (jogos, notícias, etc.) e recebimento de informações através de histórias, 
literatura, pontos para reflexão, etc. (TILLMAN, 2002). 
 Cada atividade contida nos manuais começa com um estímulo e é formulada de 
maneira que os estudantes possam desenvolver o entendimento cognitivo e afetivo 
(vivencial) do valor em foco através de uma metodologia diversificada, criativa e 
interativa. 
 Discussões sobre pontos para reflexão presentes em cada atividade são um ponto 
de partida essencial para que os estudantes possam desenvolver entendimento cognitivo 
e compreensão efetiva sobre cada um dos doze valores propostos pelo Programa. Os 
estudantes também socializam suas idéias e sentimentos e vivenciam valores através de 
momentos de auto-reflexão (textos, poemas, relaxamento, visualização), estudo em 
grupos e mapeamento mental. Este último, uma técnica gráfica muito útil que desenvolve a habilidade de pensar sistematicamente (pensamento radiante, criativo), e o 
potencial cortical - palavra, imagem, número, lógica, ritmo, cor, consciência espacial 
(BUZAN, 1994). O mapeamento mental é sugerido em muitas lições de valores e 
estimula os estudantes a desenvolver, além das habilidades já mencionadas, a 
criatividade, a concentração e a memória. 
 Explorar valores dessa forma desenvolve uma gama de habilidades pessoais 
(acalmar o eu, vislumbrar as qualidades do ser), sociais e emocionais, bem como de 
comunicação interpessoal que possibilitam a aplicação dos valores na vida, de maneira 
que possam experimentar os sentimentos positivos dos valores, entender os efeitos de 
seus comportamentos e escolhas em relação ao seu próprio bem-estar e ser capazes de 
desenvolver a habilidade de tomar decisões socialmente conscientes (TILLMAN, 2002, 
p. 8-9). 
 No plano emocional, as atividades VIVE estimulam os estudantes a construir o 
entendimento efetivo do papel da mágoa, do medo, da raiva, e suas conseqüências em 
seus relacionamentos com os outros. Muitas lições oferecem técnicas de resolução de 
conflitos, comunicação positiva, jogos cooperativos, execução de projetos em 
cooperação que constroem habilidades de comunicação interpessoal (TILLMAN, 2002, 
p. 10). 
 Através da linguagem artística, presente em quase todas as lições, os estudantes 
são estimulados a cantar e compor canções, dramatizar, pintar, escrever poemas, 
esculpir, confeccionar cartazes, painéis, colagens, etc. Para Tillman (2002), quando os 
estudantes engajam-se com a arte, eles freqüentemente têm que recorrer ao valor e 
discernir o que realmente querem dizer. O processo de criação traz à tona um novo 
entendimento e discernimento sobre o valor, tornando-o mais significativo em suas 
vidas. Assim, desenvolvem a criatividade, a auto-estima, a concentração e o sentimento 
de comunidade. 
 Os estudantes vivem valores no mundo real ao refletirem sobre os fatos sociais, o 
meio ambiente e mundo em sua dimensão ampla. As atividades despertam nos 
estudantes o desejo de serem capazes de contribuir com sua comunidade, sociedade e o 
mundo com respeito, confiança e propósito, entendendo as implicações práticas dos 
valores nos relacionamentos numa perspectiva global. As unidades sobre respeito e 
simplicidade abordam temas como: os problemas mundiais da atualidade, diversidade 
étnica, sustentabilidade, dentre outros, propondo atividades que encorajam os estudantes 
a criar métodos para uma convivência pacífica, tolerante e respeitosa, bem como para que possam intervir no sentido de criar justiça, coesão social e dignidade para todos, 
integrando valores em suas vidas e instigando-os a envolverem-se em projetos sociais, 
ecológicos, educativos etc. 
 
A efetividade do VIVE em sala de aula 
 
 As atividades VIVE inspiram educadores e estudantes a compreensão e a vivência 
de valores em três vertentes bastante amplas e intrinsecamente relacionadas. 
A primeira delas poderíamos denominar de autoconhecimento, a experiência da 
dimensão espiritual do ser. Nela os estudantes são estimulados a reconhecer que as 
virtudes lhes são inerentes, a identificá-las e a praticá-las em suas vidas, ou seja, como 
eles se sentem quando não as praticam em momentos de necessidade e quais são os 
benefícios quando as praticam. Temos observado que esta prática leva, 
conseqüentemente, à criação de um ambiente propício para relacionamentos respeitosos, 
cooperativos, compreensíveis e solidários. Há, portanto, um melhor reconhecimento do 
outro e de si próprios e eles passam a lidar melhor com suas emoções de raiva, medo, 
vergonha, desenvolvendo sua capacidade cognitiva e autoestima. 
 A efetividade do VIVE está em considerar o indivíduo como o ponto de partida 
para uma educação ética. Para tanto, é necessário que os estudantes reconheçam seus 
valores. Contudo, isso não é possível sem a intersubjetividade, que cria empatia, 
compreensão e cooperação. 
 O indivíduo é social e, em comunidade, ele aprende a conviver e convivendo ele 
também aprende a ser. O convívio ético cria a consciência universal de que somos todos 
uma mesma família vivendo em uma mesma casa, e que nossos problemas são 
planetários. Por isso, o programa incentiva vivenciar os valores no mundo real 
praticando-os no nosso tempo presente, conhecendo outras realidades culturais, 
reconhecendo na diversidade, a unidade que necessitamos para criarmos a sociedade 
justa, democrática e pacífica que ansiamos. 
 Nesse sentido, muitas lições dos manuais do VIVE propõem como estímulo 
técnicas de relaxamento físico, mental e visualização. As atividades sobre os valores 
Paz, Respeito e Amor, os primeiros valores que o programa sugere trabalhar com os 
estudantes, usam amiúde essas técnicas. Elas conduzem a experiência de paz, silêncio e 
tranqüilidade no ambiente da sala de aula, diminuem o estresse mental e proporcionam melhor relacionamento interpessoal, concentração, desenvolvimento cognitivo e 
criatividade. 
 Temos observado, através da aplicação das atividades VIVE, que para alguns 
estudantes o efeito positivo é imediato e a prática passa a ser uma experiência constante 
e bem-vinda na sala de aula. Para outros, a princípio lhes parece estranho, mas logo as 
experiências de silêncio e calma lhes envolvem, e mesmo os poucos que permanecem 
resistentes, logo são tocados pela atmosfera quando o professor sugere que o momento é 
de silêncio pessoal e que cada um deve fazer algo positivo e pacífico em silêncio. 
 O uso da música instrumental enquanto os estudantes produzem textos, resolvem 
exercícios, elaboram atividades usando a linguagem da arte ou fazem avaliações, 
contribuem para manter a atmosfera de calma e concentração. Em doze anos de 
experiência com a aplicação do programa, temos constatado que os estudantes se 
importam com valores e os desenvolvem quando em uma atmosfera apropriada. Eles 
também desenvolvem habilidades de relacionamentos e criatividade que lhes são muito 
úteis no processo de aprendizagem, em uma maior concentração, no reconhecimento, 
aceitação e prática de seus valores. Esteticamente, a qualidade das atividades adquire 
uma sensível melhora3
. Outros que se detinham mais às habilidades lingüísticas 
quebraram seus medos e resistências e começam a prosperar e usar a criatividade. 
 A segunda vertente denominamos de entendimento cognitivo dos valores e é 
exercitada através da metodologia proposta pelas lições básicas de valores, ou seja, 
pontos para reflexões, produção de textos, poemas, debates, atividades em grupos, 
mapeamento mental, atividades artísticas, pesquisa, aula de campo, vivências, 
experiências cotidianas etc. 
 Procuramos aplicar as lições VIVE de forma que estejam intimamente conectadas 
com a realidade subjetiva de cada indivíduo, com a realidade sócio-cultural e os 
problemas mais emergentes do planeta. Nessa perspectiva, ao aplicar as atividades com 
valores estamos refletindo sobre conceitos e desenvolvendo habilidades propostas pelas 
diferentes disciplinas sobre acontecimentos e práticas do cotidiano. As lições de Paz - 
Imaginando um mundo pacífico e um mundo de paz versus um mundo de conflito, 
inspiram os estudantes a refletirem sobre o que há no mundo que causa conflitos, as 
ações individuais e coletivas que constituem relacionamentos pacíficos, sobre o tipo de 
 
3
 Essas conclusões foram a princípio relatadas em um texto (Barros, 1999) e publicadas em uma matéria 
sobre educação e violência (Badejo, 2002), publicada na Revista Pátio No. 21. maio/junho 2002. 
 
 sociedade em que gostariam de viver e como podem atuar para transformá-la. A 
atividade sobre Respeito para jovens - Problemas mundiais propõem uma reflexão em 
grupos sobres os problemas mundiais, os fatores que os causam, os anti-valores que 
estão por trás deles e que valores os líderes mundiais deveriam praticar para evitá-los. 
Algumas atividades sobre o valor Simplicidade trabalham o conceito de 
sustentabilidade e incentivam os estudantes a vivenciá-lo em contato com a natureza, ao 
pesquisar sobre a diversidade étnica do planeta, de seu país e comunidade. Essa 
perspectiva vai além de um conceito. Os estudantes refletem, criam e discutem um 
conceito e seu entendimento do valor sendo inspirados a praticá-los através de suas 
atividades escolares e em suas vidas. 
 A terceira vertente é a associação dos valores aos conteúdos curriculares e às 
experiências sócio-culturais dos estudantes, ou seja, o reconhecimento daquilo que é 
valorizado pelos estudantes em sua comunidade e escola, suas formas de sociabilidade e 
valorização disso para inspirá-los a fazer escolhas pessoais e sociais positivas. 
 Freire (1999, p. 4) foi enfático ao afirmar que “nunca foi possível separar em dois 
momentos o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos”. Muitos 
educadores que trabalham com educação baseada em valores vêem nos conteúdos de 
suas disciplinas uma oportunidade singular para o entendimento cognitivo e efetivo dos 
valores. Dessa forma, eles estão, cotidianamente, proporcionando aos estudantes 
reflexões sobre política, sociedade, cultura, ciência, arte e sua prática cidadã no mundo 
no qual vivem. Nessa perspectiva, o estudante pode fazer escolhas pessoais e sociais 
positivas ao desenvolver interesse pela pesquisa científica ou pela literatura, envolver-se 
na reivindicação dos direitos de sua comunidade ou optar por uma ação em favor de 
causas sociais maiores, movimento ecológico, direitos humanos etc. 
 Nossa experiência com o ensino de História e Geografia tem se voltado a criar 
sempre a relação conhecimento/ética. Qualquer conteúdo pode ser abordado a partir de 
uma perspectiva ética e ser uma oportunidade auspiciosa para os estudantes refletirem 
sobre o seu papel de sujeito histórico e sua atuação na escola, comunidade e no mundo, 
de forma que ajam e se relacionem inspirando paz, cooperação, tolerância, respeito etc. 
Também temos experimentado isso através de atividades interdisciplinares envolvendo 
projetos e atividades que envolvem professores de diferentes disciplinas. 
 Houve alguns momentos em que a escola desenvolveu projetos nos quais o tema 
valores humanos permeava as atividades, tornando-se uma experiência coletiva. 
Atividades desenvolvidas em conjunto com outros professores de História e Geografia foram emblemáticas nesse sentido. Os valores foram o eixo norteador para inspirá-los a 
participar e criar atividades inovadoras em projetos organizados pela escola que 
abordavam temas como: o Cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, o Ano dos Oceanos, o Quinto Centenário do Brasil, os Jogos Olímpicos de 
Sidnei, Desenvolvimento Sustentável, o Aniversário de Fortaleza, o Manifesto 2000, 
dentre outros4
 
Considerações finais 
 
 A aplicação das atividades VIVE regularmente traz, para educadores e estudantes, 
resultados positivos em curto prazo. Evidentemente ela requer consistência e 
regularidade em sua aplicabilidade, além da vivência dos valores propostos no cotidiano 
escolar. Ao contrário, uma atmosfera propícia não será criada, o que compromete o 
êxito de qualquer proposta de educação baseada em valores. 
 Paralelamente, o corpo docente deve estar atento ao conteúdo das disciplinas 
estudadas que não devem perder o enfoque ético. Manter uma relação dialógica 
conteúdo/sujeito/realidade tendo como eixo uma perspectiva ética, também cria uma 
perspectiva consistente da prática de valores para os estudantes. A educação baseada em 
valores é uma forma efetiva, consciente e crítica de intervenção no mundo. Vivenciar 
nossos valores enquanto em contato com o conhecimento, torna-se também uma 
oportunidade para que os estudantes possam decidir e eleger suas maneiras de intervir 
positivamente na sua comunidade. O ensino dos conteúdos nessa perspectiva “implica o 
testemunho ético do professor” (FREIRE, 1999, p. 72). Pois a maneira como ele os 
observa, contextualiza, analisa e expressa sua visão de mundo, do conhecimento e do 
ser humano. Ele estará, portanto, dando uma contribuição considerável para a formação 
de cidadãos éticos. 
 Estimulados por atividades com valores e pela postura positiva do professor, 
muitos estudantes desenvolvem suas habilidades de cognição e criatividade e passam a 
expressar interesse por temas ligados a direitos humanos, meio ambiente e problemas 
comunitários, assumindo uma postura crítica e humana face a suas atitudes de 
intervenção social. 
 
4
 Ver o trabalho monográfico da professora Osivânia Queiroz (2005) o qual faz um relato de experiências 
com educação e valores na Escola Maria José Medeiros. 
  Não podemos, contudo, pensar em educação baseada em valores na qual se 
considera que só os estudantes precisam vivenciá-los. É essencial que eles também 
sejam praticados pelos educadores, que permeiem todos os relacionamentos e a política 
pedagógica da escola. Os estudantes devem visualizá-los cotidianamente no espaço 
escolar, o que os inspirará a vivê-los nas múltiplas relações que desenvolverão consigo, 
com seus pares, em sua comunidade e na sociedade como um todo. 
 Para tanto, o Projeto Político Pedagógico da escola deve contemplar a educação 
fundamentada em valores. Como instituição social, a escola deve, portanto, refletir 
sobre os valores culturais e espirituais da sociedade em que está inserida, pois tanto 
educadores quanto educandos são formados nessa sociedade. Assim, a escola estará 
orientando a formação de um cidadão no sentido de aprender a conhecer, a fazer, a ser, 
e aprender a conviver como propôs Delors (2004). Os últimos dois aspectos, ainda 
muito ausentes no nosso sistema educacional, distancia a escola do seu papel essencial 
que é ensinar o que é a nossa identidade de ser humano. 
 
 
Referências 
 
BADEJO, Maria Lúcia. A Educação Enfrenta a Violência. Revista Pátio, Ano VI, No. 
21, maio/junho, 2002. 
BARROS. Paulo Sérgio. Valores na Sala de Aula: Uma Nova Cultura para a Escola. 
Brasileira da Atualidade, Jornal da Escola. Formação Continuada de Professores. 
Fundação Demócrito Rocha, Fortaleza, 13 de setembro de 1999. 
__________________. O Resgate da Dignidade: Redimensionando o ensino da 
História. Mimeo, 1999. 
__________________. Vivendo Valores na Educação: para uma reavaliação do ethos 
escolar. Disponível em: 
http//www.vivendovalores.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=86&I
temid=50. Acesso em julho de 2007. 
DELORS, J et alii. Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da 
Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI. 9. Ed. São Paulo: Cortez; 
Brasília: MEC/UNESCO, 2004. 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999. JAREZ. Xesús R. Educação para a paz: sua teoria e sua prática. Porto Alegre: Artmed, 
2002. 
MORIN, Edgar. Os Sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: 
Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. 
_____________. Educação e Complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São 
Paulo: Contexto, 2005. 
PEREIRA. Osivânia Maria Queiroz. Desabrochando a afetividade no ser: uma 
experiência com educação baseada em valores. Universidade Estadual Vale do Acaraú, 
Especialização em Psicopedagogia. Fortaleza, 2006. 
TILLMAN, Diane, COLOMINA, Pilar Q. Guia de Capacitação do Educador. Editora 
Confluência, São Paulo, 2004. 
TILLMAN, Diane. Theorical Background and Support for Living Values: An 
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20 ago. 2007 
___________. Atividades com Valores para Jovens. São Paulo, Confluência, 2003.