A religiosidade, a espiritualidade e o consumo de drogas

24/08/2011 19:47

A religiosidade, a espiritualidade e o consumo de drogas -

Zila van der Meer Sanchez - Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). 
Solange Aparecida Nappo - Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid).


Resumo

Contexto: A religiosidade e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores protetores ao consumo de drogas em diversos níveis.

Objetivo: A presente revisão da literatura pretendeu descrever os principais estudos científicos que tratam do papel da religiosidade no tratamento e na prevenção do consumo de drogas.

Método: As fontes citadas neste artigo de revisão são indexadas nas bases de dados PubMed e Scielo, entre 1976 e 2006, tratando de questões relativas à religiosidade, à espiritualidade e ao consumo de drogas.

Resultados: Estudos têm apontado para evidência de que as pessoas que freqüentam regularmente um culto religioso, ou que dão relevante importância à sua crença religiosa, ou ainda que praticam, no cotidiano, as propostas da religião professada, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas. Além disso, os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando seu tratamento é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico.

Conclusões: Devido ao forte papel de assistência social das religiões no Brasil, a exploração deste tema no contexto brasileiro seria de grande relevância para a saúde pública.

Sanchez, Z.M.; Nappo, S.A. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 73-81, 2007

Palavras-chave: Religiosidade, espiritualidade, drogas psicotrópicas, tratamento, prevenção.
Introdução

Diversos são os estudos científicos que apontam a relevância da prática de uma religião e da fé para a manutenção, assim como para a melhora das condições de saúde (Moreira-Almeida et al., 2006; Koenig et al., 2001). Já existe literatura científica indexada, substancial e concreta, associando, positivamente, a religiosidade ao bem-estar físico e mental do ser humano (George et al., 2002; Miller e Thoresen, 2003).

Apesar de esses estudos terem enorme dificuldade para estabelecer um padrão medidor da religiosidade, ao longo dos últimos 30 anos dados quantitativos vêm apontando para a relevância desta na prevenção do consumo de drogas. As evidências apontam para a existência de uma associação positiva entre o não-consumo de drogas e os altos índices de religiosidade que, em particular, são expressos pelas idas freqüentes à igreja e pela importância dada à religião professada (Parfrey, 1976; Dalgalarrondo et al., 2004).

Os estudos científicos publicados em revistas indexadas apontam para o papel fundamental da religiosidade, principalmente no tratamento de doenças crônicas e severas. Os pacientes são beneficiados pela prática religiosa, em especial nos períodos que estão sujeitos a mudanças sociais e psicológicas estressantes oriundas das condições geradas pela patologia (Koenig, 2003). Dentro desse perfil, encontram-se os dependentes de drogas que, por serem portadores de patologia crônica, vivenciam momentos estressantes e traumáticos ao longo do seu processo de recuperação (Sanchez, 2006).

Booth e Martin (1998), analisando os dados existentes na literatura científica até 1997, afirmaram que se observa claramente uma relação inversa entre a religiosidade e o uso de substâncias psicotrópicas, embora não se possam descartar os diversos problemas derivados da eventual mensuração dos índices de religiosidade, além de um certo viés amostral de alguns desses estudos. Os autores também apontam para um efeito positivo da religião na recuperação dos dependentes, destacando o papel fundamental desempenhado pela Igreja na área da prevenção e do tratamento destes. Da mesma maneira, Koenig et al. (2001) afirmaram haver, até o ano 2000, mais de 100 estudos interessantes no campo da religião relacionados com o abuso de substâncias psicotrópicas.

A maioria desses estudos enfatizou a relação inversa da religiosidade com o consumo de drogas, teorizando sobre os supostos mecanismos de recusa das drogas quando em um cenário de contexto religioso, baseados em dados obtidos por levantamentos epidemiológicos com características estritamente quantitativas.

Vale destacar que os estudos dentro do tema “religiosidade e drogas” tendem a enfocar mais o papel da religiosidade para a prevenção primária do consumo e, também, o da espiritualidade no que respeita ao tratamento da dependência (Booth e Martin, 1998).

Os termos “religiosidade” e “espiritualidade” costumam ser utilizados como sinônimos nos estudos empíricos (Miller e Thoresen, 2003). No entanto, existe um infindável debate epistemológico da utilização desses conceitos. Para padronizar a informação, no presente trabalho utilizou-se a conceituação de Sullivan (1993) para a espiritualidade e a de Miller (1998) para a religiosidade. De acordo com o primeiro, a espiritualidade é uma característica única e individual que pode ou não incluir a crença em um “Deus”, sendo aquela responsável pela ligação do “eu” com o Universo e com os outros, a qual também está além da religiosidade e da religião. Já a religiosidade representa a crença e a prática dos fundamentos propostos por uma religião (Miller, 1998).

Para o levantamento dos artigos citados neste artigo de revisão, foi feita uma busca nas bases de dados Medline (PubMed) e Scielo, procurando artigos, em inglês, português, espanhol e francês, que tratassem de questões relativas à religiosidade, à espiritualidade e ao consumo de drogas psicotrópicas, entre 1976 e 2006, tendo-se utilizado as seguintes palavras-chave: “religião”, “religiosidade”, “espiritualidade”, “uso, abuso ou dependência de drogas” e “drogas psicotrópicas”. Além disso, também foram levantadas as teses de doutorado brasileiras, indexadas pela Capes, que também refletissem estudos sobre o tema.

As seções seguintes apresentam a revisão dos dados já publicados na literatura e que formam o corpo do conhecimento teórico do tema do presente trabalho. Por questões didáticas, os achados foram divididos em dois grandes grupos: Religiosidade e “epidemiologia” do consumo de drogas e Religiosidade e “tratamentos” para a recuperação dos dependentes de drogas.


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Fonte: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/